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Opinião

 
 

Dia luta, dia de conquistas


1. Me despertei, de madrugada, fugindo do terror de um sonho. A mão dele estava apoiada no meu quadril.

2. No dia do nosso casamento, quando o amor brilhava no meu anel de recém casada, meu marido me jurou por sua vida: te amarei até a morte. E eu acreditei.

3. A primeira vez que me fez sangrar, não imaginei que começava a cumprir seu juramento.

4. Eu sempre o perdoo. Chora e eu o perdoo. Sorri quando chora. Tem os olhos cinzas e se chama Manuel.

5. Tem que aguentar. O que Deus uniu o homem não separa. Isso me diz sempre minha mãe. E ontem à tarde ela repetiu quando lhe pedi que me acolhesse em sua casa.

6. A enfermeira da emergência fitou o meu marido quando ele lhe disse que eu havia caído da escada. Depois, olhou para mim. E eu, olhei para o chão.

7. Ele diz que as coisas se ajeitam na cama. E me obrigou a demonstrar que o amo. Fizemos o amor. Minha costela doía absurdamente. 

8. A vizinha do terceiro andar me ofereceu ajuda. Ouve meus gritos desde fora. Os outros vizinhos fecham as janelas.

9. - A senhora sabe em que está se metendo? me perguntou o juiz, na primeira vez que apresentei uma queixa. Depois me aconselhou que voltasse para casa. E eu voltei.

10. No começo ele gostava do meu riso, da minha maneira de falar. Agora me diz frequentemente, e sempre gritando, que quando abro a boca o faço passar vergonha diante de seus amigos e que é ele quem faz o papel de ridículo.

11. Vida minha, me diz muitas vezes. Vida minha. E em seguida repete: minha, minha.

12. Desta vez lhe deram uma multa. Ele pagou com dinheiro da carteira. E me advertiu que custa bem barato me bater e que eu não lhe exponha nunca mais. Eu o amava, o amei desde o primeiro momento, desde que o vi.

13. Hoje voltei a perdoá-lo.

14. Ontem, no meio do dia, meu marido me chamou de puta. À tarde comprou uma lata de gasolina e a guardou debaixo da pia da cozinha. Puta. Puta.

15. Ele vai acordar. Se sigo tremendo, se despertará. E o dia vai começar cedo demais. Tenho que controlar o tremor. Devo tentar dormir novamente, com sua mão sobre meu quadril.

16. Hoje devolvi a ele meu anel de casada. Ele o apertou com a mão fechada. Eu corri para o terceiro andar. Meu marido chegou uns segundos depois. Me obrigou a colocar a aliança, me levou de volta pra casa, a empurrões, e gritou para a minha vizinha que cuidasse de sua vida. Tínhamos que ter trancado a porta. Eu tinha que ter corrido mais, fugido antes.

17. Se levantou do cochilo da tarde de mal humor. Olhou para mim e foi até a pia da cozinha. Agora está voltando em minha direção. Tem cheiro de gasolina. E ele está olhando fixamente nos meus olhos. Me chama de puta. Sem desviar o olhar, dá um passo para trás e me joga um líquido frio na cara. Tem cheio de gasolina. Tem os olhos cinzas e uma lata vazia na mão. Acendeu um palito de fósforos. E se chama Manuel.


* Dulce Chacon (1954/2003), escritora e poeta espanhola, que registrava a condição feminina, sobretudo nos tempos do regime franquista em seu país.

Segue o "mapa do feminicídio no Brasil"


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